As Lágrimas da Guerra, #2 (Interlúdio)

Tropeçou em um monte de lama e caiu com a cara no chão, se sujando mais ainda e fazendo o fedor que estava impregnado nela subir. Soluçou e passou a mão pelo rosto, tirando a lama dos olhos. Seu cabelos ruivos estavam um lixo. Olhou para frente e viu uma fumaça subindo não muito distante, e logo abaixo a pequena entrada de pedra de sua simples aldeia. Sorriu a começou a correr em direção ao lar, mas enquanto se aproximava pensou o que poderia ter acontecido lá dentro enquanto estivera fora. A esperança saiu de seu coração e ela passou a temer o que encontraria. Passou pelo arco de pedra na entrada e olhou para todos os lados, não encontrando nada, e ouvindo somente o som do vento batendo nas árvores próximas.

Como sentia fome… Não comia nada sustentável já havia alguns dias, quase uma semana. Conseguira chegar ali graças aos cogumelos comestíveis que encontrara no caminho e que, graças a Deus, não foram encontrados na ida pelos outros aldeões. Caminhou por entre as casas simples, muitas de amigos seus, e começou a ouvir um tênue som de martelo batendo em aço. ”Forjando”, ela pensou. Foi até a forja e lá encontrou um homem musculoso e suado trabalhando. Ele enfiou o aço avermelhado em um barril de água, fazendo a fumaça subir com um chiado. Ele parou o serviço quando percebeu a presença dela. Primeiro a olhou sério, mas depois de fitá-la de cima a baixo, sorriu.

”Bom dia… Senhora”, ele disse, mostrando alguns dentes podres. ”Não sou senhora. -ela respondeu se aproximando.- O que aconteceu aqui?”, ela continuou e esperou a resposta. ”Soldados invadiram e levaram todos os homens e crianças.” ”Soldados do rei, do Império?” ”Sim… Mas o que uma senhora como você faz por aqui?” ”Já disse que não sou senhora. Moro aqui.” ”Ah… -nesse momento ele largou o seu aço e esfregou as mãos. -estava com os fugitivos? Com os covardes?” Ela ficou em silêncio, abaixou os olhos. ”Venha comigo, vou te levar aonde estão as outras mulheres, você deve conhecer alguém, se é daqui.” Ele a segurou pelo braço, mas ela escorregou para fora e o seguiu a uma distância segura, saindo da pequena cobertura aonde estavam e andando entre as casas.

Ele a levou até o casarão que havia no centro da aldeia e servia como estoque. Na entrada, um homem os parou. ”Quem é essa?”, ele perguntou, e o ferreiro sorriu. Ela começou a dar passos para trás, desconfiada, mas logo o homem que estava na porta botou o rosto para dentro do casarão e chamou dois homens, que apareceram rapidamente e foram atrás dela. A corrida foi pequena, gorda e fraca como estava, ela logo foi capturada. ”Gorda, fraca e burra.”, ela pensou. Foi levada para uma pequena casinha que ficava ao lado do casarão, gritando e chorando. Virou o rosto e olhou para o ferreiro. ”Traidor!”, gritou. ”Traidor? -ele respondeu. -Nunca estive do seu lado.”

Lá dentro a sentaram em uma cadeira e perguntaram o que havia acontecido com a comitiva que saiu da aldeia. Quando ela contou a história, eles pareceram aliviados. ”Você é a única sobrevivente?”, um deles perguntou. ”Não sei”, respondeu limpando as lágrimas. ”Você só sabe chorar…”, pensou. A pegaram pelo braço e a levaram até o casarão, aonde havia uma grande mesa, como antes, e cadeiras dos lados. Muitos homens estavam comendo lá, ”soldados”, ela pensou. E sua barriga doeu só de pensar em comer. ”Você pode servir de distração para nossos homens.”, disse um dos que a levavam. Ela se arrepiou e começou a se contorcer, gritando, enquanto os homens que comiam percebiam o que estava acontecendo a começavam a rir.

Naquele dia não a fizeram nada, mas ela dormiu acorrentada em uma carroça e sendo vigiada por um homem. Ela prestou atenção nele. Tinha a barba rente, cabelo escuro curto, músculos definidos e o rosto carismático, apesar de duro. Quando pensou em dizer algo, ele se afastou, e ela dormiu com os olhos úmidos e sonhou com dias antigos e melhores.

Ladrão

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