Análise do filme Inception (A Origem)

“Qual é o parasita mais resistente? Uma bactéria? Um vírus? Não. Uma idéia! Resistente e altamente contagiosa. Uma vez que uma idéia se apodera da mente, é quase impossível erradicá-la. Uma idéia que é totalmente formada e compreendida, permanece.”

Essa é a carta de apresentação do mais novo filme de Christopher Nolan: “A origem” (Inception, 2010). Essas palavras são pronunciadas para alguém que está comendo. É importante ter isso em mente para a compreensão do uso do nome “Inception”, que tem sido mal interpretado até mesmo nas críticas onde a língua-mãe é o inglês.

Inception: No dicionário significa Início, origem. Ok, mas tudo no filme, a começar pela cena que descrevi acima, nos leva a perceber que o uso do título “Inception” deriva do verbo incept, que significa ingerir. Tudo no filme gira em torno da ingestão de uma idéia.  Seria um título esquisito e pouco chamativo, mas nas legendas do filme é usada a expressão inserção, que pode não ser a tradução literal, mas é a mais adequada (e funcionaria perfeitamente para o título em português). Há uma diferença fundamental entre inserção e ingestão. Enquanto o primeiro nos remete a um procedimento invasivo, ativo no sentido de ser empurrado algo a alguém, no segundo temos um movimento de aceitação, de passividade, de acolhimento. São assim que as idéias são absorvidas, e assim que elas permanecem.

O final do filme dá margem a duas interpretações básicas: 1 – Cobb acorda de fato e volta para seus filhos no mundo real. 2 – Cobb ainda está sonhando. Essa segunda alternativa é que abre o filme a infinitas interpretações que pipocam pela internet e fazem a graça e a genialidade da sétima arte, porque insere o espectador na história, faz o filme não acabar com o fim da projeção, e “digerimos” aquela idéia por dias, talvez semanas ou meses!

Uma das possíveis teorias é que o responsável pela distorção de realidade é Miles (Michael Caine), o pai de criação e mestre de Cobb na “arte de navegar mentes”; o único com capacidade para iludir Cobb num intrincado jogo para fazê-lo se perdoar e voltar para os filhos, e o único com motivos para fazê-lo. Há duas teorias sobre em que momento Cobb entrou neste “grande sonho” sem perceber: Uma é que TODO o filme já é um sonho. Isso torna as coisas mais fáceis, pois todos os personagens e situações anteriores a isso ocorreriam apenas na mente de Cobb, manipulada por Miles. Ou de que o “grande sonho” começa em Mombaça (na África).

Percebam que quando Cobb conhece Yusuf (Dileep Rao) ocorrem uns diálogos estranhos. Ele aparentemente alfineta Cobb com a pergunta “você ainda sonha, Cobb?” ou o velho que diz “Eles vêm aqui para serem acordados. O sonho se tornou para eles a realidade. Quem é você pra dizer o contrário?“, na parte em que mostram alguns idosos sonhando num porão. Antes disso Yusuf ainda questiona Cobb se ele tem certeza de que quer ver essa cena. Após Cobb pedir pra Yusuf testar nele um poderoso sonífero, ele sonha com Mal e “acorda” tão angustiado que não consegue nem girar o pião. Só que, de acordo com minha teoria, ele não acorda de verdade. E a partir daí surgem flashes das crianças e de Mal em sua “realidade”. O pião não é girado mais (ou pelo menos ele não cai). Esse é o “grande sonho” do qual ele não acorda mais.

A idéia por trás dessa teoria é que Miles, juntamente com Ariadne e Yusuf (e possivelmente Saito) sabem do plano dentro do plano, que é mergulhar fundo na mente de Cobb ao mesmo tempo em que mergulham na de Fischer pra realizar a missão de Saito. Saito aparecer magicamente na África; Miles estar convenientemente esperando por ele na alfândega do aeroporto; as crianças estarem praticamente com as mesmas roupas e posição no final, Ariadne aceitar muito facilmente um trabalho que é oferecido a ela como ilegal e perigoso etc). Outro fato que corrobora a teoria é a conversa de Cobb com Miles. Miles parece bastante cínico quanto ao pedido de Cobb por um arquiteto, pois sabe das tramóias ilegais em que ele esteve envolvido, mas quando Cobb diz a ele que é pra reencontrar os próprios filhos, Miles prontamente diz “eu tenho a pessoa certa pra você” e nos apresenta Ariadne (Ellen Page). Isso acontece porque Miles percebe que é a hora certa de botar seu próprio plano de “inception” em prática.

Os nomes dos personagens são um guia para entender o roteiro:

Dom Cobb: Dom é “Senhor, Soberano“. Cobb pode ser traduzido como “aquele que está no controle“. O que é irônico, porque ele PENSA que está no controle, mesmo quando as coisas dão errado.

Arthur: É o “herói” do filme no seu sentido mais hollywodiano. É altivo, guardião, confiável, infalível e ainda beija a garota. Não há erro em apontar seu nome como uma referência direta ao Rei Arthur.

Ariadne: Do grego Arihagne (Pura, sagrada). Na mitologia Ariadne é quem ensina Teseu a se guiar no labirinto de Tebas e a derrotar o Minotauro. Ela dá a ele um rolo de fio – que ficou conhecido como o “fio de Ariadne” – pra ele sempre saber por onde veio. No filme a menina (imagem de pureza) guia Cobb pelo labirinto que ela criou. Ela é o fio condutor da trama, e pode ser considerada a personagem principal, por ser a guia na jornada de Cobb pela sua própria mente, sem que ele perceba a intenção por detrás disso.

Mal: O nome da esposa de Cobb é incerto (possivelmente Margaret), mas todos a chamam de Mal, que em francês é o mesmo que em português: O mal. Na divulgação do filme ela é chamada de “A Sombra”, e é exatamente isso que ela é, na psicologia analítica. A sombra é uma parte de nossa psiquê que queremos ocultar de nós mesmos, e assim a projetamos inconscientemente no outro. O sentimento de culpa em relação ao que aconteceu a Mal manteve-a viva nas projeções mentais de Cobb, levando a este conflito Amor x Culpa em todos os sonhos dele, representados/projetados na figura bidimensional/caricata de Mal que, ao mesmo tempo em que é a doce amada, é também a raiva e a destruição dos desejos inconscientes de Cobb (que não fosse o dele ficar com ela no limbo, porque no fundo ELE não queria deixá-la, por essa mistura de amor, culpa e arrependimento).

Fischer: É o executivo em quem Cobb deve implantar a idéia. Seu nome deriva de Fisher (pescador). Ironicamente quem é “fisgado” sem querer é o Cobb.

Eames: É o que se transforma no tio de Fischer dentro do sonho. Seu nome deriva do inglês arcaico Eam, que significa…. Tio.

Yusuf: É o químico preparador do sonífero que permite o sonho pesado. Seu nome significa José, em árabe. No Corão há um Yusuf cuja história começa com um maravilhoso sonho que ele teve, e posteriormente adquire a habilidade de interpretar sonhos. Na nossa Bíblia há também – em Gênesis 37 – um José que interpreta sonhos.

Maurice: É o pai de Fischer. Seu nome deriva do latim Mauritius (Mouro), uma tribo que vivia no norte da África e hoje são muçulmanos. São Maurício (St. Maurice) foi o soldado romano (convertido cristão) que se tornou mártir ao preferir morrer com toda a sua unidade de soldados a cumprir ordens de esmagar uma revolta cristã.

Miles: É o pai de Mal, professor de arquitetura e mentor de Cobb na arte de criar sonhos. Seu nome significa, em latim, soldado. É interessante perceber que a figura paterna do personagem Fischer possui um nome que remete ao próprio sogro de Cobb.

Saito: Provavelmente este nome é uma homenagem a Hajime Saito, samurai líder dos Shinsengumi e policial do serviço de inteligência, relacionado com contra-espionagem. O personagem é apresentado no filme como um empresário poderoso, representando um Deus Ex Machina que possibilita qualquer coisa que Cobb precise. É a chave para a realização do desejo de Cobb rever seus filhos, algo que até então ele achava impossível. Durante o filme Saito dá mostras de seu poder e influência (como comprar uma companhia aérea inteira pra utilizar UM avião) e resgata Cobb de uma enrascada no meio da África. Isso fortalece os laços entre ambos, e ele acaba assumindo para Cobb uma figura de autoridade quase paterna, influência que Miles não possuía. Por isso talvez Saito foi utilizado para influenciar discretamente o inconsciente de Cobb com um questionamento: “Você quer se tornar um homem velho, cheio de arrependimento, esperando pra morrer sozinho?“. A frase é lembrada mais duas vezes, sendo a última no limbo, usada como um gatilho para Cobb recobrar sua consciência e trazer Saito de volta. A beleza aqui é que na verdade nesta cena Cobb está resgatando ELE MESMO do limbo através do “espelho” Saito, que naquele momento era uma representação visual – e visceral – da idéia contida na frase que era pra Cobb!

A idéia de espelho está inserida no filme em outros momentos-chave, que mais parecem uma forma gratuita de usar computação gráfica mas não são: quando a menina “dobra” a cidade e vemos prédios iguais se juntando, de forma espelhada. E noutra cena, quando a mesma menina “fecha” um vão da ponte com espelhos. O espelho é uma forma sutil de demonstrar que um dos dois é falso, e na psicanálise ele é usado para promover a desidentificação de figuras parentais ou próximas e ajudar na individuação da criança. Por exemplo, uma criança pequena não concebe a mãe como outra pessoa, e sim uma extensão dela mesma, e o espelho ajuda-a a perceber-se como indivíduo pela primeira vez. No caso de Cobb sua individualidade estava “contaminada” pela presença de Mal, e o que Ariadne faz? Ela usa o espelho para que Cobb se veja como SUJEITO, uma entidade separada de Mal. Obriga-o a olhar pra si mesmo, como se apontasse “Ei, este é você AGORA”. Cobb certamente não percebeu isso conscientemente, mas algo sempre fica implantado (ingerido).

Isso é intervenção. Um psicólogo hábil pode arar e adubar a terra, e depois construir, como um arquiteto, as fundações e o palco para a apresentação de sua idéia, e assim vê-la germinar; é isso que acontece no filme, quando o Demiurgo Miles constrói, através dos personagens, toda a base (ver os filhos), o palco (a inserção de uma idéia na mente de outra pessoa, a ajuda e incentivo dos outros) e apresenta sua idéia (“Cobb, tudo o que está entre você e seus filhos agora é a sua sombra”). O desenrolar da história e o grand finale vão depender sempre do paciente.

Só que a sombra não assiste a tudo pacificamente. Ela cria um sem-fim de dificuldades e desafios, porque o inconsciente tem seus próprios planos. No filme chamam de “defesas da mente”, e elas existem mesmo, e podem assumir as formas mais assustadoras ou desejáveis desde que cumpram o seu papel de bloquear aquilo com o qual você não quer (ou não está preparado para) se confrontar, como anticorpos que atacam as células que consideram invasoras. No filme isso é representado pelos cofres, pelas gangues armadas até os dentes e por uma esposa apaixonada ou raivosa.

Mal é o minotauro que Ariadne ajuda Cobb a derrotar. É graças à menina que Cobb se abre e admite sua culpa e seu remorso, confessando a história da inserção malsucedida em Mal. Esse foi o primeiro passo de Cobb rumo à aceitação/libertação. É emblemático que Ariadne esteja sempre ao lado dele nos confrontos com a sombra, e mais emblemático ainda que ela o incentive a derrotá-la (matá-la), como na cena do limbo; quando a sombra está prestes a dominar Cobb, Ariadne intervém e atira em Mal, enfraquecendo-a e permitindo um lindo momento de catarse, em que Cobb dialoga com sua própria sombra como não sendo mais a mulher que ele tanto amou:

Cobb – Eu não posso ficar com ela porque ela não existe mais.
Mal – Eu sou a única coisa em que você ainda acredita.
Cobb – Eu gostaria. Eu gostaria mais que tudo. Mas eu não posso imaginá-la em toda a sua complexidade, toda a sua perfeição, toda a sua imperfeição. Olhe pra você. Você é só uma sombra da minha esposa verdadeira. Você é o melhor que eu posso fazer; mas sinto muito, você não é boa o suficiente.

Isso se chama em psicologia lacaniana de “atravessar o fantasma”, ou seja, confrontar o sujeito com a realidade. Isso nada mais é do que achar um sentido para aquilo que inicialmente não tinha sentido. Ariadne faz isso o tempo todo com Cobb. Foi a única que explorou a relação de Cobb com Mal, entrou em seus sonhos, o ajudou a superar todas as etapas da inserção; inclusive no momento em que ele desiste e diz que fracassou, ela encontra uma solução. É ela quem dá um outro SENTIDO para continuar. É ela que vai até o último andar do elevador dos sonhos de Cobb (onde ele não queria entrar) e o acompanha ao nível mais profundo do insconsciente e o ajuda a “atravessar o seu fantasma”. Ariadne é a peça-chave no filme, e uma possível análise para isso é por acaso seu amuleto ser um bispo: uma peça de xadrez que, na França (terra da personagem) é chamada de “Bobo da corte”, aquele que em tempos medievais se fazia de tolo e de inocente pra falar de forma ambígua certas verdades ao Rei, que o bobo (que de bobo não tinha nada) captava no mundo fora dos muros do castelo.

Vemos então o epílogo, que é também o início do filme. Cobb está saindo do mar, que é um símbolo na psicologia para o inconsciente, porque, segundo Freud, o inconsciente – assim como o mar – não tem começo nem fim, e nem tem individualidade (é um amálgama de água, e água tirada do mar não é mar, é água). Essa simbologia nos remete claramente ao estado de Cobb, como que ressurgindo do limbo em que sua individualidade ia se perdendo (isso explica a falta de memória dele à mesa com o Saito velhinho).

Uma última análise é do título da música de Edith Piaf “Non, Je Ne Regrette Rien” significa “Não, não me arrependo de nada“. Isso é a síntese da catarse de Cobb, quando ele confronta a sombra no limbo. E não por acaso é a música escolhida pra “chutar” de volta os personagens ao mundo real. O mais fantástico foi a forma como o compositor da trilha sonora, Hans Zimmer, utilizou fragmentos dessa música para permear a trilha, dentro do paradigma imposto pelo roteiro de que, quanto mais profundo o sonho, o tempo – e a música – desaceleram.

Link para análise da música aqui. 

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