Lágrimas da Guerra, #5 FINAL (A Última Prisioneira)

A aldeia pegava fogo: os soldados a haviam incendiado. Havia gritos para todo lado, enquanto ela se encolhia atrás de madeira e lixos. Não viu quando alguém chegou por trás e a apertou pelo pescoço com o braço, fazendo-a se levantar. Ela viu o tênue brilho de uma lâmina, e no mesmo momento em que a ponta encostava em sua garganta, seu braço ia para cima, levando o pedaço de madeira que havia pegado consigo. Acertou na nuca de quem a segurava, e o braço que a prendia frouxou. Ela se assustou ao se virar e ver a irmã do bom homem loiro. Mas não pensou duas vezes. Acertou o pau no rosto dela outra vez, e a jovem foi ao chão, gemendo. Então a gorda, que já tinha muita força nos braços devido ao seu treinamento anterior, se preparava para mais um golpe, mas então um homem em um cavalo passou rapidamente e jogou uma tocha incendiária próximo dali, e ela foi embora correndo.

Flechas zuniam no seu ouvido, enquanto ela corria agachada tentando sair da aldeia. ”Sim, agora eu tenho um pouco de coragem”, pensou, e nesse momento as pernas dela travaram, ela olhou para cima e um cavalo negro enorme relinchava e se inclinava para cima na sua frente. Seu casco acertou seu rosto, e ela sentiu como se sua cabeça fosse encolhida do tamanho de uma ervilha, e então desmaiou.

”Ah…”, sua boca ardia, e ao passar a língua pela gengiva, sentiu mais de um dente quase solto. Cuspiu um bola de sangue, e depois outra e depois mais uma. Abriu os olhos, e estava em uma jaula móvel. Junto dela haviam outros, e ela se assustou ao reconhecer amigos de sua antiga aldeia. ”Não!, gritou, Não! Ah…”, não, não era possível, tudo isso para no final ser apanhada novamente por esses malditos soldados. Não… Que vida miserável era a sua? O que tinha feito para passar por tudo aquilo?… Não tinha tido problema algum em viver, até que os interesses dos poderosos destruiu tudo que havia construído. E tudo isso é somente questão de sorte! Por que ela não nasceu em um berço de ouro, aonde tudo seria mais fácil, aonde não teria problema algum, aonde não trabalharia tanto, aonde não sofreria, aonde seu pai receberia um dote pelo seu casamento…

Seus sonhos eram muitos, e a realidade não permitia espaço para nenhum deles. Ela era uma camponesa, sua opinião não valia de nada, em nenhuma história de heróis alguém do campo, do interior, havia feito algo importante. Pelo menos nas histórias que ela conhecia. Então olhou para o lado e viu que passavam por um grande penhasco. Olhou o outro lado e viu um pequeno morro, com algumas plantações, e uma sombra negra lá em cima, ereta. ”Sim, eu vou fazer algo importante”. Seu peso finalmente serviria para algo. As carroças eram interligadas umas nas outras por cabos de ferro, para que não se separassem. A comitiva que a levava prisioneira, certamente para torturá-la, era razoavelmente grande. ”Me matar por eu seu uma camponesa. Por eu ser uma boca inútil para o rei. Olhe essas plantações míseras.”, pensou. A tortura certamente aconteceria, pois nove em cada dez soldados têm a mente sombria.

Então ela começou. As carroças passavam a centímetros do penhasco, e o morro subia ao lado, impedindo que elas se afastassem do perigo. A sombra ainda continuava lá em cima. Ela se jogou para o lado da morte, batendo o corpo contra as grades. Isto assustou os miseráveis que compartilhavam a jaula com ela, que fez mais uma vez, e depois outra, enquanto lágrimas desciam de seu rosto. Alguns gritavam para que parassem e tentaram segurá-la, enquanto outros começaram a ajudar, e uma briga quase ocorreu dentro da carroça. Outros prisioneiros de outras jaulas começaram a fazer o mesmo, enquanto os soldados gritavam e enfiavam a lança nos desprovidos de sorte. ”Alguns de vocês vão morrer comigo, malditos!”, ela resmungou, enquanto dava o empurrão derradeiro.

Ela não viu, mas enquanto a carroça tombava lentamente, a sombra negra lá em cima levantava um arco e tirava uma flecha da aljava. Se tivesse olhos melhores, ela teria visto seu cabelo loiro, e o rosto de um bom homem loiro. Ele fechou um os olhos e mirou, soltando a flecha no momento em que a gorda saía de visão. Enquanto a carroça dela caía, começando a puxar as outras, ela sentiu a flecha atravessando seu peito. Ela buscou ar, mas não achou. Flechou os olhos e se encolheu, ouvindo tudo ranger e o mundo caindo em cima de si mesma, todos os soldados que estavam montados e os prisioneiros naquela confusão que cheirava a sangue e morte. Continuou de olhos fechados, e se encolheu mais ainda, como um caramujo, e esperou pela sua tão esperada morte.

Alguns dias depois o exército inimigo invadiu o Império, criando um cerco em sua capital. Cerco que durou quase um ano e meio, pois toda plantação havia sido recolhida, e mesmo assim ainda ficaram algumas para trás. Mas ainda assim o exército inimigo venceu, pois muitos trabalhadores do próprio Império se viraram contra ele e contra seu Imperador.

Ladrão

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